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O Cinema e a Vida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.02.11

 

A cidade acordou envolta em nevoeiro. O sol subiu timidamente até um certo ponto no céu. Aí surgiu, luminoso, como um riso universal que se desprende.

É assim que vejo o Cinema e a Vida. O Cinema pode mostrar-nos a possibilidade de uma vida mais desperta, mais intensa. Sim, o Cinema pode revelar-nos personagens que nos inspiram e que nos desafiam.

Mas a Vida supera sempre qualquer forma de representação, sempre. Qualquer simples gesto, qualquer palavra no lugar certo, qualquer momento marcante, ilumina de imediato todos os nossos neurónios e células. 

O Cinema é uma possibilidade, uma ideia, um desafio. A Vida é a experiência que nos alimenta, é a energia vital.

Por isso sempre preferi os filmes que nos revelam a vida, mesmo por metáforas (e sobretudo por metáforas), onde tudo é plausível e verosímil, à fantasia sem consistência ou densidade vital e, nesse sentido, estéril.

 

Hoje vemos uma tendência para o distanciamento da vida, das emoções, dos sentimentos, e a escolha de um artificialismo frio e impessoal. Todos se querem parecer com robôs formatados. Ninguém quer estar ligado a uma energia vital que é só da sua responsabilidade. Dá muito trabalho estar atento dois minutos, não há tempo para respirar nos intervalos das correrias, a vida pode passar ao nosso lado e nós sem percebermos, as oportunidades de uma vida, as pessoas certas, pertencer ou não pertencer ao mundo certo, o último gadget, aparelhómetro-brinquedo de eternos adolescentes suspensos num presente de onde não querem sair, nem sequer para viver (envelhecer).

Hoje vemos uma tendência para a violência e não apenas na destruição (e quanto mais espectacular melhor), ou no crime (e quanto mais horrendo melhor), mas na fantasia que eu colocaria no plano das dependências, como o vampirismo (sugar a vida dos outros). Mas a pior, a tendência mais insidiosa e decadente, a meu ver, é este resvalar para o calão mais grosseiro e boçal, acompanhado de uma total ausência de respeito por si próprio e pelos outros, que vemos em certas comédias que julgávamos inofensivas. Todo este material humorístico é lixo, apenas lixo.

 

 

De vez em quando aparece um filme! Um oásis no meio da lixeira, uma súbita descoberta, uma alegria redobrada. Este ano já vi dois. Não se revelaram pela técnica (a linguagem própria do Cinema), mas pelas personagens.

 

Em Vais conhecer o Homem dos teus Sonhos, as personagens nascem de esterótipos sociais do Woody Allen e funcionam muito bem em comédia: o marido que, farto de ser tratado como um velho, troca a mulher por uma loura de vinte anos; a mulher abandonada que recorre a uma cartomante e ao whisky; a filha do casal cansada de uma vida sem perspectivas, casada com um escritor bloqueado; o escritor bloqueado que fantasia com a jovem vizinha da frente; o empregador da filha do casal, um sedutor egoísta... 

Woody Allen é perito na escolha dos actores (e na sua direcção), estão todos perfeitos nos seus papéis: Anthony Hopkins, Naomi Watts, Antonio Banderas... Menos verosímeis, mas ainda assim interessantes, as restantes personagens.

No caso deste filme, não são apenas os actores-personagens ou as personagens-actores que nos transportam de cena em cena, mas as próprias surpresas da vida, as reviravoltas, as partidas que a vida nos prega. Foi essa ironia da vida que me ficou deste filme. 

 

 

O outro filme foi O Discurso do Rei. Neste, as personagens são reais (nos dois sentidos). E de novo são os actores que fazem o filme: Colin Firth e Geoffrey Rush, muito bem acompanhados pela Bonham-Carter.

É certo que o próprio discurso é fabuloso, se dito com aquela convicção. Um discurso vale pelo que tem de autêntico, pelo que diz no momento certo, pela comunicação que permite, pelo elo entre quem o diz e quem o ouve.

Este filme também respira desse momento histórico crucial para a Inglaterra e pelas terríveis perspectivas que se avizinham: uma guerra mundial.Mas o que me ficou do filme foi esta reflexão: dois irmãos, um sociável e preparado para assumir a responsabilidade e numa altura tão delicada, revela-se um diletante, sex-addicted, imaturo e egocêntrico; o outro, tímido e sensível, revela-se o verdadeiro líder de que o país e o povo britânico precisavam e que vieram a amar genuinamente. O primeiro queria o melhor das duas possibilidades que a vida lhe oferecera: as vantagens de ser rei e as vantagens de fazer o que bem lhe apetecesse; não se questionava, considerando-se acima de qualquer avaliação, mesmo moral, incluindo o terrível equívoco relativamente a Hitler. O outro, desejava apenas o sossego e tranquilidade de uma vida simples e saíra-lhe na rifa uma enorme responsabilidade, a que não poderia escapar; trata-se de um apelo moral, que provoca um conflito interior.

É desta matéria que se faz uma liderança, uma liderança digna desse nome: um homem simples, que se questiona a toda a hora sobre a sua competência, que duvida do seu próprio valor, que não se sente à altura do desafio que terá de enfrentar, mas que tem uma bússula interior muito forte, sabe quais os valores que deve respeitar. Uma insegurança, que à partida pode ser entendida como uma fragilidade, é afinal uma força enorme: quem duvida reflecte, quem se questiona ouve os que o rodeiam, quem se sente vulnerável aproxima-se dos seus semelhantes. É dessa matéria vital que se forma uma liderança à altura de um desafio.

 

 

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publicado às 08:56

"Il y a longtemps que je t'aime / Jamais je ne t'oublierai..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.02.10

 

É esta canção infantil que acompanha uma das cenas finais do filme The Painted Veil. Um Somerset Maugham a navegar neste rio...

 

Podemos pegar no filme por diversos ângulos:

- como uma jovem mulher troca uma prisão emocional (a mãe, sobretudo) pelo desconhecido;

- como aprender a viver e a amar implica uma densidade emocional dolorosa... as desilusões pelo caminho... e a pena de ter magoado quem nos amou;

- como são complexas as pessoas: imprevisíveis, nada parecidas com os teus micróbios;

- como é possível a descoberta do amor e da paz depois da maior violência e indiferença.

 

Tentarei pegar pelos diversos ângulos possíveis, mas antes de tudo, gostava de falar da leveza, dessa leveza que surge na maior densidade  e intensidade emocional. É essa leveza que torna a vida suportável.

Também foi essa leveza que salvou a jovem mulher: sou uma pessoa normalíssima que gosta de passear, ir a festas, dançar, dir-lhe-á ela. É com essa atitude simples e despretensiosa que ela encara a terrível decisão que o marido a obriga a assumir. É também assim que se tenta aproximar dele, apesar da sua rejeição e desprezo. E finalmente fazer qualquer coisa, tornar-se útil de alguma forma. Mesmo que a realidade não seja nada leve ou a ideal, ela prefere ver a parte que permite melhorar a vida das pessoas.

 

Finalmente ficamos também a saber que não são tão diferentes como julgavam, há pontes que se descobrem, uma paz que desconheciam. Esperávamos um do outro o que não podíamos dar... transforma-se nessa aceitação tranquila do que o outro é e faz, de como tenta fazer o melhor possível.

 

Numa época como a nossa, de grande superficialidade e frivolidade, este filme é uma sacudidela emocional para quem o quiser ver, realmente ver. Há um caminho que se percorre, as personagens erram, enganam-se, tentam redimir-se. É esse caminho difícil, aprender a viver e a amar, crescer afinal.

 

E aqui posso retomar o fio à meada: uma jovem mulher quer libertar-se da frieza de uma mãe que não a leva a sério e não a aprecia. Este homem aparece do nada, um bacteriologista, que quer ir para a China distante. Um homem decidido e apressado. A decisão é tomada sem pensar duas vezes. E o cenário já é outro, um outro universo. De certo modo, foi uma fuga que a levou a decidir.

 

Sim, aprender a viver e a amar é sempre um caminho doloroso, emocionalmente exigente, há uma densidade e intensidade emocional que deixa marcas, há desilusões garantidas, muitos erros a lamentar como o maior de todos: magoar quem não queríamos magoar.

 

A complexidade das pessoas não é visível num microscópio, como ela lhe dirá, a imprevisibilidade, os erros, e depois a tentativa de acertar de novo, de ser útil, de fazer o que é possível.

 

Em linguagem do cinema, não posso dizer que o filme seja muito original ou particularmente brilhante. Destacam-se a fotografia, a música, algumas cenas, os actores...

Mas é um Somerset Maugham, o escritor de personagens enigmáticas que se revelam depois, tal como na vida real.

A mim comoveu-me, a sério! Já não é muito frequente um filme conseguir comover-me. E já não há muitos filmes assim, a tratar dos assuntos da vida e dos afectos, da lógica e da falta dela, de circunstâncias adversas ou coincidências felizes, de personagens vulneráveis, com esta intensidade e densidade.

 

É o segundo Edward Norton que aqui está a navegar, um actor também ele enigmático e com uma inexplicável presença nos filmes em que aparece. Nesse outro vale vemo-lo obcecado  por uma adaptação, um papel numa sociedade que não entende, e por uma família instantânea.

 

 

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publicado às 19:55


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